Um novo olhar sobre a IA no Recrutamento e Seleção: a ferramenta e o artesão

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A Inteligência Artificial deixou de ser uma promessa distante para se tornar uma realidade presente e pulsante no coração das empresas. Em nenhum outro lugar essa transformação é tão evidente e, ao mesmo tempo, tão delicada quanto na área de Recrutamento e Seleção. Uma pesquisa recente da plataforma Think Work, de agosto de 2025, revelou um dado impressionante: 78% das empresas brasileiras já utilizam IA em seus processos de RH. É uma escalada notável, que nos convida a uma reflexão profunda sobre o nosso papel como líderes e profissionais diante dessa nova fronteira.

A tecnologia, em sua essência, é uma ferramenta. O martelo não constrói a casa sozinho, e a IA não contrata o talento ideal por conta própria. Seu valor reside em sua capacidade de ampliar nossas próprias habilidades. No recrutamento, a IA surge como uma aliada de duas pontas, servindo tanto a quem recruta quanto a quem busca uma oportunidade.

Para as empresas, a IA oferece uma otimização sem precedentes. Ferramentas de triagem automatizada, que já são uma realidade para quase metade dos processos, conseguem analisar milhares de currículos em minutos, identificando perfis com a aderência técnica necessária para uma vaga, definidas pelo recrutador. Isso libera esses profissionais de uma tarefa mecânica e demorada, permitindo que eles se concentrem no que realmente importa: a análise estratégica, o contato humano, a avaliação cultural e comportamental. A tecnologia organiza o campo, mas a decisão de quem joga ainda é humana.

Por outro lado, para os candidatos, a IA também se apresenta como um recurso valioso. Treinada como mentora de currículo e carreira, ela pode ajudar a otimizar currículos, a sugerir melhorias e a alinhar a apresentação de suas habilidades com o que o mercado procura. Mas quem deve decidir sobre essas informações, são os candidatos. É um assistente que democratiza o acesso a boas práticas e ajuda a nivelar o campo de jogo, permitindo que mais talentos tenham a chance de brilhar.

Contudo, é justamente no ápice dessa eficiência algorítmica que a nossa humanidade se torna não apenas relevante, mas imprescindível. Como bem aponta a educadora Raquel Bernal, quanto mais a inteligência artificial avança, maior a necessidade de reforçarmos o que nos distingue dela: a criatividade para solucionar um problema inédito, o pensamento crítico para questionar um padrão, a curiosidade para explorar o desconhecido e, acima de tudo, a reflexão ética sobre o impacto de nossas decisões.

Nesse cenário, as chamadas “habilidades humanas” ganham um novo protagonismo. Não se trata apenas de uma atualização do termo “soft skills”, mas de uma reivindicação de nossa autenticidade. É a coragem de errar, a intuição que guia uma decisão para além dos dados, a empatia que nasce do encontro real com o outro. Nenhum algoritmo pode substituir a profundidade

de uma conversa, a sensibilidade de perceber uma nuance em um diálogo ou a capacidade de conectar-se genuinamente com a história e o potencial de uma pessoa.

Profissionais que compreendem isso não veem a IA como uma concorrente, mas como uma parceira. Eles sabem interpretar contextos, identificar as sutilezas e fazer conexões que extrapolam o que está escrito nos dados. Eles usam a tecnologia como um apoio para expandir sua visão de mundo, e não para limitá-la.

O futuro do recrutamento e seleção não está em uma disputa entre humanos e máquinas. Está na sinergia entre eles. A IA pode e deve ser utilizada para criar processos mais eficientes, justos e inteligentes. Mas o comando, a estratégia, a empatia e a decisão final devem permanecer onde sempre pertenceram: nas mãos de pessoas. A inteligência humana é a força motriz, e a artificial, a ferramenta que nos ajuda a construir um futuro com mais e melhores oportunidades para todos.

Fabíola Lago é jornalista e escreve sobre RH há mais de 25 anos. Atualmente, faz conteúdos para Vagas.com.

Por: ABRH Brasil

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