Por Flávio Bitter, diretor-geral da Bradesco Saúde
Durante décadas, a assistência médica foi tratada como um benefício importante, mas, sobretudo, como um centro de custos. Esse olhar ficou para trás. Em um cenário marcado pelo envelhecimento da população, pelo avanço das doenças crônicas, pelos desafios da saúde mental e pela disputa por talentos, cuidar da saúde dos colaboradores tornou-se uma decisão estratégica para a competitividade das empresas.
Esse movimento coloca o RH no centro da transformação. Mais do que administrar benefícios, cabe à área liderar uma cultura de prevenção, bem-estar e uso inteligente dos recursos de saúde. Afinal, empresas saudáveis começam por pessoas saudáveis.
Ademais, o que era restrito às grandes empresas, agora é a realidade para empresas de todos os tamanhos! Os números reforçam essa mudança: na Bradesco Saúde, mais de um milhão de vidas são atendidas em produtos voltados para pequenas e médias empresas, que reúnem mais de 166 mil clientes. O dado mostra que investir em saúde passou também a integrar a estratégia de negócios das PMEs.
E quando o investimento acontece, os resultados aparecem. Entre as dez PMEs mais bem avaliadas no ranking Great Place to Work 2024, quatro oferecem produtos da Bradesco Saúde. A coincidência merece atenção: organizações que investem no cuidado com seus colaboradores tendem a criar ambientes mais engajados, fortalecer a retenção de talentos e impulsionar a produtividade.
Mas oferecer um plano de saúde, isoladamente, já não basta. Empresas que fazem a diferença combinam assistência médica com ações de promoção da saúde, incentivo à prevenção, acompanhamento de doenças crônicas, vacinação e iniciativas voltadas ao equilíbrio físico e emocional. Cuidar antes que o problema apareça é mais eficiente para as pessoas e mais inteligente para os negócios.
A relevância desse modelo de atuação, que incentiva ações preventivas e prioriza a atenção básica ou primária à saúde, ganha ainda mais força diante do atual perfil epidemiológico da população brasileira. O aumento da incidência de doenças crônicas, como diabetes, hipertensão, doenças cardiovasculares e câncer, reforça a importância de estratégias voltadas ao diagnóstico precoce, ao acompanhamento contínuo do paciente e à promoção da saúde.
Nesse cenário, estimular hábitos saudáveis, ampliar o acesso a exames periódicos e promover o monitoramento permanente dos beneficiários tornam-se medidas essenciais para evitar complicações, reduzir internações evitáveis e melhorar os desfechos clínicos. Investir em prevenção gera benefícios para as pessoas, amplia a qualidade do cuidado e contribui para a sustentabilidade da saúde suplementar. O acompanhamento contínuo pode melhorar a qualidade de vida das pessoas ao mesmo tempo em que reduz desperdícios, aumenta a eficiência do sistema de saúde e a produtividade no trabalho.
Também merecem destaque os programas voltados ao acompanhamento de doenças crônicas, que atenderam 3.567 participantes, e o programa destinado às gestantes, que acompanhou 615 mulheres durante o ciclo gravídico-puerperal. Além disso, campanhas de vacinação aplicaram mais de 5.880 doses contra doenças sazonais, reforçando uma medida simples, acessível e extremamente eficaz na prevenção de agravos.
A imunização permanece como uma das estratégias preventivas mais eficazes para proteger a saúde das pessoas ao longo de todas as fases da vida. Além de reduzir o risco de doenças e de suas complicações, a vacinação contribui para diminuir afastamentos, preservar a produtividade e promover maior bem-estar entre os colaboradores. Quando incorporada às iniciativas de promoção da saúde, reforça uma cultura de prevenção e cuidado contínuo, favorecendo diagnósticos precoces, melhor qualidade de vida e um uso mais eficiente dos recursos assistenciais. Trata-se de uma medida simples, acessível e de alto impacto, que beneficia tanto os indivíduos quanto as organizações.
Esses resultados dialogam com uma discussão cada vez mais presente na saúde pública e suplementar: a necessidade de mudar a cultura do cuidado. Um dos principais defensores dessa transformação é o Todos Pela Saúde, iniciativa criada para fortalecer o sistema de saúde brasileiro e ampliar a capacidade de prevenção e resposta a doenças. A organização tem defendido que promover saúde exige uma atuação contínua, baseada em informação qualificada, vigilância, prevenção e desenvolvimento de uma cultura que valorize o cuidado antes do aparecimento das doenças.
Nesse contexto, tecnologia e inteligência de dados tornam-se importantes aliadas. O uso de informações epidemiológicas, indicadores populacionais e modelos preditivos permite identificar grupos de risco, direcionar campanhas específicas e construir programas personalizados para diferentes perfis de colaboradores. Trata-se de uma abordagem muito mais eficiente do que agir apenas quando a doença já está instalada.
Ao mesmo tempo, é preciso enfrentar um desafio inadiável: garantir a sustentabilidade do sistema. Nesse contexto, a coparticipação, quando implementada com transparência e boa comunicação, contribui para estimular o uso consciente do plano de saúde. Padrão de planos com livre escolha (reembolso) apenas em itens essenciais com consulta média, priorizando o uso da ampla Rede Referenciada da operadora para os demais eventos em saúde, o que permite melhor coordenação do cuidado e maior controle, também deve ser privilegiada. Não se trata de restringir o acesso, mas de preservar um princípio essencial da saúde suplementar: o mutualismo, que depende do uso responsável dos recursos para garantir equilíbrio e acesso no longo prazo.
O protagonismo do RH está justamente em construir essa consciência. Informar, orientar e engajar colaboradores é tão importante quanto negociar contratos ou ampliar coberturas.
A saúde corporativa deixou de ser uma despesa operacional. É um investimento em produtividade, inovação, clima organizacional e sustentabilidade dos negócios. Empresas que compreendem essa mudança não apenas cuidam melhor das pessoas. Tornam-se mais resilientes, mais competitivas e mais preparadas para o futuro.
A pergunta que as empresas deveriam fazer já não é quanto custa oferecer um plano de saúde. A questão é: quanto custa não investir na saúde das pessoas?
Sua empresa ainda administra um benefício ou já utiliza a saúde como uma vantagem estratégica?
As empresas que conseguirem responder provavelmente descobrirão que o maior retorno não está apenas na redução de despesas assistenciais, mas na construção de organizações mais saudáveis, inovadoras e preparadas para o futuro.
